Trama golpista: fala de Paulo Gonet expõe papel decisivo das Forças Armadas
“O golpe não se consumou, uma vez que, apesar de bastante tentado, não obteve a adesão dos comandantes do Exército e da Aeronáutica", disse
Da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 02/09/2025 às 16:01 | Atualizado em: 02/09/2025 às 16:05
Durante o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros sete réus acusados de participação em uma tentativa de golpe de Estado, no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira (2), o procurador-geral da República, Paulo Gonet, disse que o golpe não se consumou por negativa das Forças Armadas.
Sobretudo, o processo é considerado histórico por tratar da responsabilização criminal de um ex-presidente da República por tentativa de ruptura institucional — um precedente inédito desde a redemocratização.
O peso das palavras de Paulo Gonet
De acordo com a Revista Sociedade Militar, durante sua manifestação, Paulo Gonet, trouxe à tona um ponto que pode definir a narrativa histórica sobre o episódio: o papel das Forças Armadas na contenção da conspiração.
“O golpe não se consumou, uma vez que, apesar de bastante tentado, não obteve a adesão dos comandantes do Exército e da Aeronáutica. […] O plano foi apresentado pelo comandante maior das Forças Armadas: o presidente da República [Jair Bolsonaro]. Mas não prosperou pelo respeito do Exército e da Aeronáutica”, declarou Gonet.
Assim, a fala é contundente porque reconhece a existência de um plano concreto de subversão da ordem, atribui a Bolsonaro a liderança da tentativa e, ao mesmo tempo, coloca as cúpulas militares como responsáveis por conter a ruptura.
Leia mais
O que estava em jogo
Segundo a acusação, Bolsonaro buscava mobilizar a estrutura das Forças Armadas para anular o resultado das eleições de 2022 e impedir a posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva.
A princípio, a estratégia incluía discursos sobre fraude eleitoral, reuniões para discutir alternativas jurídicas e a circulação de minutas golpistas que previam a decretação de estado de sítio.
Especialistas em Defesa apontam que a articulação só não avançou porque, diferentemente de 1964, a cúpula militar não aderiu. A diferença fundamental estaria no perfil institucional da tropa atual, na relação com a sociedade civil e no peso internacional que uma ruptura teria para o Brasil.
Leia mais
PGR revela detalhes do plano golpista de Bolsonaro para se manter no poder
O Exército de 1964 e o de 2023
Então, comparações com o golpe militar de 1964 surgem inevitavelmente. Naquele momento, os militares assumiram o protagonismo da derrubada de João Goulart e sustentaram duas décadas de ditadura. Hoje, embora haja setores simpáticos a Bolsonaro dentro das Forças Armadas, o alto comando manteve postura de recusa a um rompimento.
Para estudiosos, isso não significa ausência de riscos. A politização crescente de parte da tropa, a presença de militares em cargos civis durante o governo Bolsonaro e a permanência de discursos de desconfiança no processo eleitoral mostram que a relação entre política e quartéis segue sensível.
Julgamento histórico
O julgamento no STF, acompanhado de perto por juristas, políticos e militares da ativa e da reserva, definirá não apenas a responsabilidade penal de Bolsonaro e seus aliados, mas também os limites da participação das Forças Armadas na vida política.
Assim sendo, ao destacar que o golpe “foi bastante tentado”, mas não prosperou pela recusa de adesão militar, Paulo Gonet deixou claro: o futuro da democracia brasileira depende não apenas da força das instituições civis, mas da capacidade das Forças Armadas de resistirem a convites de aventureirismo político.
Leia mais em Revista Sociedade Militar.
Foto: Antonio Augusto/STF
