Flor Matizada faz uma festa frenética

Na visão da lilás e branco, a ciranda manacapuruense se consolidou como uma vitrine para as lutas amazônicas.

Dassuem Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 01/09/2025 às 08:04 | Atualizado em: 01/09/2025 às 08:12

A ciranda Flor Matizada encerrou o 27º Festival de Ciranda de Manacapuru na madrugada deste dia 1⁰ de setembro, segunda-feira, com o tema “Amazônia: sonho e luta cirandeira”.

O tema abordou o processo de transformação da dança de roda portuguesa na ciranda amazônica, primeiramente, na cidade de Tefé e, em seguida, na ciranda de Manacapuru.

Na visão da lilás e branco, a ciranda manacapuruense se consolidou como uma vitrine para as lutas amazônicas.

Tais lutas foram representadas pela saga do resgate da personagem Flor Matizada, roubada por depredadores da floresta.

O sonho se inicia

Para contar a história do sonho e luta cirandeira, a Flor Matizada começou sua apresentação com uma casa cenográfica ambientada em um seringal.

Um grupo de crianças brincou de roda no quintal à frente.

Antônio Felício, pernambucano que difundiu a ciranda na comunidade de Nogueira, em Tefé, e Mãe Benta, quituteira do mesmo município, sonham com o futuro da ciranda.

Vivaldo Azevedo, apresentador, adentrou a arena levado por uma coruja, símbolo de sabedoria, interpretando o professor José Silvestre, que difundiu a ciranda de Tefé em Manaus, na década de 70, e depois, em Manacapuru, em 1980.

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Estilo Gandhi

À frente da casa do seringal, o cordão de entrada fez uma coreografia que representava a cultura nordestina dos bonecos de mamulengo.

A coreografia criada por Gandhi Tabosa tinha o seu estilo, que ressalta a expressividade das mãos dos dançarinos com luvas coloridas em neon.

Nas laterais, os seringueiros tinham chapéus enfeitados com fitas coloridas que simbolizavam o folclore nordestino.

O resgate da flor

O cordão de entrada se transformou em seres da floresta. Em meio a curupiras e bichos-folharal, nasceu a Flor Matizada, representada por uma cirandeira.

Após a festa do nascimento da flor, os predadores invadem a floresta e a sequestram.

Em uma cena dramática, os entes caem sem vida no chão, simbolizando a falência da floresta. A saga se desenvolve em torno do resgate da Flor Matizada.

O nascimento da personagem Flor Matizada em Manacapuru é uma analogia para o nascimento da ciranda manacapuruense, pois são sinônimos.

Manacapuru é uma palavra em nheengatu, língua intertribal amazônica, cuja tradução é flor matizada.

Borboletas

O imenso cordão de cirandeiros surge representando a panapaná, as borboletas da esperança.

As borboletas são símbolos da transformação. Neste caso, da ciranda portuguesa em nordestina, da nordestina em tefeense e, desta, na ciranda de Manacapuru.

O primeiro desenho coreográfico dos cirandeiros foi um voo de borboleta, como se fossem um único corpo batendo asas.

O cordão de 160 cirandeiros produziu um belíssimo efeito coreográfico.

Nesse sentido, a ciranda Flor Matizada veio pisando forte e bonito no chão. A lilás e branca fez do seu cordão a alegoria principal do espetáculo.

A luta continua

No sonho de futuro de José Felício e Mãe Benta, eles evocam os personagens típicos e seres da floresta, como caipora, mãe da mata, curupira, Seu Honorato e Seu Manelinho para resgatar a Flor de Manacá.

Chamam ainda pajés dos povos indígenas. Cada ente da floresta trouxe um item feminino ou personagem típico.

Autodenominação

A ciranda Flor Matizada trouxe um passo (ato musical da ciranda) intitulado “O protesto dos kaxinauá. A ciranda poderia ter adotado a autodenominação desse povo, que se chama huni kuin.
Kaxinauá é o nome atribuído a eles por outros povos, que foi replicado pelos colonizadores, mas tem sentido pejorativo para eles.

Cantadoras

Destaca-se que Márcia Siqueira e Mara Lima são as únicas cantadoras de cirandada do festival. As duas fizeram um dueto para interpretar a cirandada “Pecha de maldição”.

Nesse passo, o aparecimento da cirandeira bela representou o resgate da Flor Matizada. Ela foi recebida por um artista fantasiado de beija-flor.

Juntos, uma flor matizada sendo tocada por um beija-flor, eles formam o símbolo da ciranda Flor Matizada.

O ritual da chuva, realizado pelo pajé huni kuin (kaxinauá), sinalizou o retorno da vida da floresta.

Tema abstrato

A ciranda Flor Matizada não teve problemas na execução durante o seu espetáculo. Mas, defendeu um tema que se perdeu no desenvolvimento.

O resgate da flor possui uma conexão difícil com a história da transformação da ciranda como manifestação cultural, dando a impressão de que existiram dois enredos.

Não é possível prever se a aparente desconexão se refletirá nas notas. Mas, foi vista uma ciranda grandiosa e sem defeitos, com itens femininos fortes.

A lilás e branco fez um espetáculo opulento e vibrante. Os 80 pares de cirandeiros preencheram toda a arena com coreografias frenéticas e desenhos diferenciados.

Juntamente com a torcida organizada Fama (família matizada), campeã há 16 anos consecutivos no concurso independente de torcidas, o cordão de cirandeiros sustentou o espetáculo do início ao fim em uma grande festa.

Fotos: Dassuem Nogueira/especial para o BNC Amazonas